Cidade Linda

O turismo de São Paulo ganha ou perde com os grafites apagados?
O turismo de São Paulo ganha ou perde com os grafites apagados?

O turismo de São Paulo ganha ou perde com os grafites apagados?

Mal começou sua gestão e o prefeito João Doria gerou polêmica ao cobrir de cinza os grafites em alguns pontos da cidade. Essa é uma das ações do programa de zeladoria pública Cidade Linda cujo objetivo é revitalizar áreas degradadas.

Mal começou sua gestão e o prefeito de São Paulo, João Doria, gerou polêmica ao cobrir de cinza os grafites em alguns pontos da cidade. Essa é uma das ações do programa de zeladoria pública Cidade Linda cujo objetivo é revitalizar áreas degradadas. “Este é um trabalho amplo de manutenção da cidade. Queremos fazer da cidade de São Paulo um local mais agradável para se viver e para se frequentar”, explica o prefeito.

Pichação é sujeira, grafite é arte

[caption id="attachment_620" align="aligncenter" width="520"] Grafite é arte[/caption] Pichação é escrever e rabiscar em muros e fachadas e sua origem remonta a Antiguidade: a erupção do vulcão Vesúvio aconteceu em 79 d.C., mas alguns muros incrivelmente preservados ainda mostram pichações com frases de protesto contra políticos, palavrões e poesias. O povo se revolta, mas também ama. Grafite vem do italiano “graffiti”. Tão antigo quanto, surgiu durante o Império Romano, deixa marcas, inscrições e desenhos nos espaços públicos. Mas só ganhou fama nos anos 70, quando cidadãos de bem e membros de gangues do Bronx, bairro de Nova Iorque, buscavam uma maneira de comunicação para expressar sua indignação perante o preconceito racial e as injustiças sociais. [caption id="attachment_621" align="aligncenter" width="620"] A arte do grafite[/caption] Tem gente que considera o grafite como vandalismo, mas ele é uma prática autorizada. Ao contrário da pichação, que é crime previsto em Lei. Muitas prefeituras apoiam os grafiteiros e até reservam espaços exclusivos.

“Pichação na minha casa não”

Nesse vídeo que virou piada na internet, o pichador Rob vai mostrando suas “obras” pela rua, diz que foi autorizado pelos proprietários dos imóveis e, com toda convicção do mundo, fala que em sua casa não pode porque é um local de tranquilidade (como se somente a dele fosse). É aquela máxima universal: não faça com os outros o quê não gostaria que fizessem com você.

Não explicaram a diferença pro Doria

Os murais da Avenida 23 de Maio, que era o maior painel a céu aberto da América Latina, foram pintados depois de um acordo com a prefeitura em 2015. Alegando que estavam danificados ou pichados, o João Doria mandou lascar a tinta cinza sem consultar os autores, que poderiam ser chamados para fazer a restauração. Oito grafites foram preservados dentre eles o mural do mundialmente reconhecido Eduardo Kobra. Infelizmente foi estragado pela pichação de uma caricatura de Doria pintando o muro com um rolo de tinta. [caption id="attachment_622" align="aligncenter" width="1000"] Artes são apagadas[/caption]

Outra forma de protesto, essa bem divertida, foi pichar o nome do prefeito

[caption id="attachment_623" align="aligncenter" width="1000"] Dória[/caption] Agora a prefeitura voltou atrás e chamou Romério Britto – ele não, por favor – para refazer vários grafites que foram apagados pela Cidade Linda. Além disso, anunciou que está analisando algumas ruas para realizar o Festival do Grafite. Demorô!

O exemplo de Berlim

[caption id="attachment_624" align="aligncenter" width="800"] Street Art. Kreuzberg, Leviathan by Blu.[/caption] A capital da Alemanha transpira história. Com a queda do muro, construído logo após o final da Segunda Guerra Mundial para dividir o país entre a Alemanha Ocidental (capitalista) e Oriental (comunista), os grafites que já se concentravam no lado ocidental se espalharam por toda a cidade. Hoje Berlim é a capital europeia dos grafites. O bairro de Kreuzberg, afastado do centro, é o mais visitado por turistas do mundo inteiro, todos amantes da arte de rua. Lá estão obras incríveis, como o famoso grafite Leivathan, do italiano Enrico Martino, que retrata um monstro sem os olhos e formado por assustados homens cor de rosa. Ele está prestes a engolir o único diferente, uma crítica à aniquilação das individualidades.

Veja que legais esses outros grafites de Berlim

[caption id="attachment_625" align="aligncenter" width="800"] Arte em Berlim[/caption] [caption id="attachment_626" align="aligncenter" width="640"] Arte em Berlim[/caption] [caption id="attachment_627" align="aligncenter" width="800"] Arte em Berlim[/caption]

O autoritarismo é uma mancha negra

[caption id="attachment_628" align="aligncenter" width="800"] Cidade Linda[/caption] O grafite paulistano é legítimo desde a década de 80 e já teve exposições na Bienal, no MIS e no MASP. Impor a autoridade para apagar o que estava instituído não é legal. Sem os grafites, São Paulo, onde o cinza predomina nos prédios e na poluição, perde cor e vida.